Foi decidido, esta quarta-feira, a criação de um grupo de trabalho para discutir o fim dos animais nos circos e uma prorrogação do prazo para esta discussão pelos  deputados da Comissão de Cultura da Assembleia da República.

O tema, debatido em Dezembro, foi remetido para sede de comissão por um prazo que terminava a 19 de fevereiro e foi esta quarta-feira considerado “manifestamente insuficiente” pela presidente da comissão, Edite Estrela.

Durante o debate parlamentar realizado a 21 de dezembro, o PAN prometeu trabalhar até que todas as jaulas estejam vazias nos circos.

O PCP defendeu que deve ser eliminada a exposição de animais “de forma gradual”, para acautelar os interesses dos trabalhadores deste setor.

O Bloco de Esquerda referiu que, passados oito anos da lei de 2009, ainda existem 1.136 animais no setor, frisando que estão confinados a pequenas jaulas, de onde apenas saem para serem sujeitos a “treinos intensivos e violentos”.

O PS argumentou que estava disposto a dar o passo que outros países europeus já deram para proibir o uso de animais nos circos, mas considerou que devia haver um debate alargado sobre esta questão, por forma a garantir as expectativas dos agentes do setor, sem promover uma mudança repentina.

Os Verdes recuperaram um projeto que já haviam apresentado e pretendem que daqui a dois anos não sejam usados animais nos circos, mas manifestaram disponibilidade para discutir alterações em sede de especialidade, nomeadamente no que diz respeito a este prazo.

O PSD classificou este debate como “uma não questão” e defendeu a aplicação da lei em vigor, em vez da criação de nova legislação.

Posição idêntica foi assumida pelo CDS-PP, ao alegar que os projetos então discutidos refletiam aspetos já acautelados na lei.

Já para a Animal, uma organização não-governamental de defesa dos direitos fundamentais dos animais não-humanos fundada há 22 anos, a opinião é só uma “Não aos circos com animais” e porquê?

“No seu meio selvagem e de acordo com as suas características fisiológicas e psicológicas, os ursos usados nos circos nunca andariam de bicicleta, os babuínos nunca montariam póneis, os tigres e leões nunca passariam por entre arcos em chamas e os elefantes nunca se manteriam apenas em duas patas. Na verdade, as actuações de animais em circos apresentam uma visão distorcida da vida selvagem e de como aqueles animais são, mostrando sempre animais como caricaturas de humanos ou animais ridicularizados, em situações que lhes impõem uma vida de encarceramento em condições miseráveis e de condicionamento e treinos de grande violência.

Muitos dos animais que são usados nos circos foram violentamente capturados no meio selvagem, tendo as suas famílias sido mortas para esse fim. Outros foram comprados a jardins zoológicos, de onde também são separados das suas famílias. Outros ainda são comprados a outros circos. Em qualquer caso, os animais de circo têm sempre passados traumáticos e, fruto da maneira como são mantidos e tratados enquanto são usados para os espectáculos circenses, estão condenados a uma vida de permanente angústia e depressão.

A ansiedade e o stress resultantes das precárias condições de bem-estar em que são mantidos e da violência da condução, do maneio e dos treinos a que são submetidos fazem com que os animais fiquem com distúrbios comportamentais graves, nomeadamente a repetição permanente dos mesmos movimentos sem sentido, que indicam que os animais estão já alheados do mundo. Outros comportamentos estereotipados, como a auto-mutilação, tomam conta dos animais, que, de tédio, facilmente cedem à pressão e entram num autêntico estado de loucura.

A lição mais importante que os animais aprendem, desde bebés, nos circos é que, se desobedecerem, serão castigados violentamente. Durante todas as suas vidas, tigres, leões, elefantes, ursos, chimpanzés, babuínos, zebras, camelos, girafas, póneis, cavalos, cães e outros animais, vêm os seus momentos de tédio marcados pela apatia que resulta do encarceramento permanente em jaulas pouco maiores do que os próprios animais, momentos que são apenas interrompidos por sessões de treino cruéis, dos quais fazem parte meios como o espancamento, o uso de aguilhões-gancho e de chicotes e a electrocussão.

O lar de qualquer animal num circo é, normalmente, uma jaula pouco maior do que o próprio animal, que é também o vagão que serve para o transportar, e onde o animal passa a maior parte da sua vida, fechado. Como se as dimensões mínimas não fossem já suficiente, as jaulas estão muitas vezes sobrelotadas, fazendo com que os animais mal se possam movimentar. Animais que, no meio selvagem, correriam dezenas de quilómetros por dia, são forçados a passar quase todas as horas dos seus dias em jaulas exíguas, vivendo muitas vezes sobre as próprias fezes e urina, sem se poderem exercitar, ficando aborrecidos e deprimidos pelo tédio e muito desconfortáveis com a total falta de higiene.

Durante o transporte, os animais viajam em condições igualmente pobres, sujeitos a todas as condições climatéricas, expostos ao frio e ao calor, mesmo quando as suas características biológicas colidem frontalmente com estas condições. Acresce ainda o facto de muitos animais ficarem aleijados e com deficiências crónicas em resultado das correntes que lhes são aplicadas durante muito do seu tempo de reclusão. Mesmo para os animais que têm direito a ser mantidos em espaços pequenos de recreio, como acontece por vezes com cães, póneis, lamas e camelos, é muito comum que, para viagens do circo de uma localidade para outra que demorem apenas uma hora, os animais estejam fechados nos vagões durante mais de dezasseis horas. Para os animais que nunca têm espaços de recreio, a chegada a uma nova localidade apenas significa que poderão respirar um pouco melhor, pelo facto das suas jaulas/vagão passarem a estar mais abertas.

A ANIMAL defende que a utilização de animais em circos não é aceitável e deve ter um fim. Desafia os mais elementares princípios da conservação das espécies e revela-se um entretenimento cruel, conseguido a partir da miséria dos animais usados para este fim. É também uma actividade profundamente anti-pedagógica, pois leva as crianças – o principal público dos circos – a ficarem com ideias completamente erradas acerca de como os animais são.

A ANIMAL acredita que, enquanto o circo com animais é o pior espectáculo do mundo, já o circo sem animais tem todas as condições para ser o “maior espectáculo do mundo”. Por todo o mundo, companhias de circo tradicional abandonaram o uso de animais e apostaram a sua energia nas actuações de artistas humanos – essas sim, admiráveis. Muitas companhias de novo circo maravilham o público em todo o mundo, com os seus trapezistas, malabaristas, actores, palhaços, contorcionistas e outros artistas, que escolheram fazer parte de um espectáculo admirável no qual não participam animais.”

Fonte:Jornal Expresso e Animal