Cinquenta anos depois do assalto ao Banco de Portugal na Figueira da Foz, para financiar ações contra a ditadura, o momento é recordado por um dos protagonistas, Camilo Mortágua, como de viragem na necessidade de combater o regime.

“Hoje, quando penso nesse assunto, acho que o mais importante não foi fazer a Figueira da Foz, o mais importante foi o ‘click’ em que chegamos a um momento e a gente diz, sim senhora, mesmo que a minha vida acabe ali temos que ir buscar o dinheiro para fazer a revolução”, afirmou à Lusa Camilo Mortágua, 84 anos, um dos operacionais do assalto de 17 de maio de 1967.

Camilo Mortágua já tinha participado, em 1961, em atos de denúncia da ditadura de Oliveira Salazar, como o assalto ao paquete Santa Maria e o desvio de um avião para espalhar panfletos sobre Lisboa e o Alentejo, o que o obrigou a viver na clandestinidade: primeiro no Brasil e depois em França.

É em Paris que em conjunto com outros revolucionários decide, já em 1967, vir para Portugal levar a cabo um assalto a um banco que lhes permitisse resolver “um problema intransponível”: falta de dinheiro para realizar novas ações que contribuíssem para o derrube do regime.

Camilo Mortágua, na altura com 34 anos, participou no assalto à sucursal do Banco de Portugal da Figueira da Foz juntamente com Hermínio da Palma Inácio (então com 46 anos), António Barracosa (25) e Luís Benvindo (25).

Mortágua disse já não se recordar muito bem tendo ainda assim referido que 80% do capital – mais de 29 mil contos, valor que equivaleria a cerca de dez milhões de euros hoje, segundo a Pordata – não podia ser utilizado, porque essas notas ainda não tinham entrado em circulação e puderam ser anuladas pelo Banco de Portugal. “Sobraram sete a oito mil contos [2,4 a 2,7 milhões de euros, segundo a conversão da Pordata]”.

Perpetrado o assalto, em pleno dia e sem violência, os quatro operacionais conseguem escapar de Portugal com o dinheiro e chegaram a Paris dois dias depois.

“E no dia 19 [de maio] estávamos em França quando, por volta das 11 da manhã, soubemos que quem tinha feito a operação era uma coisa chamada LUAR (Liga de Unidade e Ação Revolucionária)”, disse referindo-se à surpresa dos operacionais com a notícia da revindicação da autoria do assalto.

Um episódio que Mortágua não esqueceu e que continua a merecer a seu reparo: “Precisávamos de dinheiro para criar uma organização, não era ter uma organização para ir buscar o dinheiro, era ao contrário, e houve quem quisesse aproveitar a oportunidade de haver dinheiro e ainda não haver a organização para tomar conta dela”.

Contudo, a LUAR viria mesmo a ser criada um mês depois, a 19 de junho, sob a liderança de Palma Inácio e envolvendo outros oposicionistas a residir em Paris.

Alguns dos fundadores da organização envolveram-se em polémicas e em acusações de desvio de fundos que chegaram a tribunal nos anos 90, questões que Mortágua resumiu sem ser muito concreto: “Quer dizer, há sempre gente que é útil fazendo em favor de quem está manobrando para se aproveitar do sacrifício dos outros, umas vezes a história salva-os outras vezes a história condena-os”.

Insistindo que a missão do grupo que “fez a Figueira da Foz” era a de poder “ser uma espécie de agulha mortal, [dar] umas picadas no sistema”, Camilo Mortágua concluiu que “o grande golpe no regime é que nesta sociedade [a do Estado Novo] se chegue a admitir um ato destes e se pratique, que a revolta, que a motivação chegue a esse ponto e atinja esse patamar”.