marina figueira

O desenvolvimento do turismo de iates na Figueira da Foz passa, segundo um investigador da Universidade de Coimbra, pela promoção da marina local e criação de condições, hoje praticamente inexistentes, para aquele segmento.

Autor de uma tese de doutoramento intitulada “O Turismo de Iates – Estratégia de Desenvolvimento para a Figueira da Foz”, Luís Silveira, investigador do Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território (CEGOT), alega que o município do litoral do distrito de Coimbra possui “potencialidades imensas para o desenvolvimento do turismo de iates”, mas frisa que não existe uma estratégia para esse desenvolvimento, quer da parte da Câmara Municipal, quer da administração portuária, que tutela a marina.

“Não há uma estratégia. Quando comecei a entrar em contacto com essas entidades, houve sempre muita abertura, mas não há muita definição do que se quer fazer. Na Câmara Municipal disseram-me que estavam em conversações para trazer cruzeiros de média dimensão, mas é tudo muito experimental. O turismo náutico está identificado como potencialidade [no plano estratégico da autarquia], mas depois não há um plano específico”, diz Luís Silveira à agência Lusa.

A tese de doutoramento, um documento com mais de 500 páginas e quase 300 imagens, mapas e tabelas, reúne informação variada sobre o setor da náutica de recreio, muita da qual foi produzida pelo autor em trabalho de campo e com base em inquéritos a um painel de 41 especialistas das áreas ligados a atividades e desportos náuticos, gestão, marketing e hotelaria, entre outras.

O painel de especialistas identifica como “especificidade” vantajosa da marina da Figueira da Foz o facto de se encontrar inserida na cidade – “que, em Portugal, poucas estruturas portuárias de recreio possuem” – e, como pontes fortes, dois em cada três inquiridos (66%) assinalou a segurança do centro urbano da cidade.

Outro ponto forte é o contexto geográfico nacional (marina como real alternativa no contexto da região centro). Já nas oportunidades, sobressai a proximidade a Coimbra, região vitivinícola da Bairrada e Fátima e a mercados turísticos potenciais e emergentes, e a criação de circuitos turísticos a partir da Figueira da Foz.

No campo posto, os pontos fracos são a falta de estratégia local para o turismo (42%), falta de serviços no porto de recreio (39%) e fraca divulgação turística. As ameaças recaem sobre a falta de uma estratégia regional para o desenvolvimento do iatismo, ausência de predisposição e iniciativas entre os agentes internos e externos e falta de conhecimento dos decisores.

Na tese de doutoramento, a Figueira da Foz é definida como uma cidade turística, que possui uma estrutura portuária de recreio, mas que – apesar do fluxo anual de iates provenientes do centro e do norte da Europa para o Mediterrâneo que passa pela costa atlântica portuguesa – representa uma captação pouco expressiva dessas embarcações, cerca de 700 em 2015 (sensivelmente duas por dia, com maior expressão entre os meses de abril a outubro e estadia de apenas uma noite), mas que demandam à marina local “de forma fortuita” ou pela necessidade de abastecer de mantimentos ou combustível.

“Não ficam mais tempo porque não há nada que lhes chame a atenção”, adianta.

Segundo Luís Silveira, o turismo de iates é um dos segmentos em que a população “tem um dos maiores poderes de compra, é exigente e educada em termos de habilitações literárias” e são necessárias estratégias de curto e médio/longo prazo para captar esse tipo de turismo, desde logo ao nível da informação sobre o porto e a cidade onde chegam.

Entre as propostas de curto prazo, aponta a colocação de um posto de turismo, “nem que seja virtual”, na receção da marina, estrutura que diz ser “completamente descaracterizada”, onde os iatistas apenas cumprem uma formalidade.

“Há outras coisas simples, como a publicitação da marina e da cidade em sites internacionais a que os iatistas acedem, em zonas costeiras ou noutras marinas que são ponto de partida, como em França e na Holanda”, advoga.

Outras medidas, onde se enquadram algumas de cariz mais técnico relativas a acessibilidades na própria infraestrutura de recreio, passam pela criação de um cartão de fidelização aos utilizadores da marina, que possa, por exemplo, ser extensível ao comércio local – setor onde Luís Silveira diz haver a perceção de que a marina é importante e se deve desenvolver, “mas só isso” – e serviços associados “ao iatista que queira conhecer a região”.

“Até podia haver, por parte do porto, alguém formado em turismo ou com conhecimento de línguas, e não há. É uma coisa básica. Ter funcionários a falar alemão, por exemplo, faz toda a diferença”, sustenta Luís Silveira.

Nascido nos Açores e sem possuir uma ligação específica ao mar, Luís Silveira começou a interessar-se pelo iatismo ainda em criança, quando passava férias com os pais na ilha do Faial, onde a marina da cidade da Horta “é uma referência” para os turistas.

“Um dos meus objetivos desde que vim para Coimbra foi que tudo o que fizesse, em termos de trabalhos [académicos], potencialmente, pudesse ser utilizado, ter um caráter prático”, afirma, aludindo à tese de doutoramento.