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Várias crianças de um jardim-de-infância da Figueira da Foz participaram hoje numa ação para conhecer ao vivo o peixe à venda no mercado local, que marcou o arranque da edição 2016 do projeto Ciência Viva no Verão.

A ação “olhó peixe frequinho”, integrada na iniciativa Ciência Viva no Mercado, pretende levar o público à descoberta dos mercados municipais, das peixeiras e dos peixes que vendem, arrancou hoje na Figueira da Foz e em outros 50 locais do país e é dinamizada por investigadores da área da Biologia Marinha.

Junto a uma banca de peixe do mercado municipal, Tiago Verdelhos, biólogo da Universidade de Coimbra, acompanha crianças do Jardim Escola João de Deus, munido de um catálogo intitulado “As espécies mais populares do mar de Portugal”, fazendo corresponder as fotografias do livro aos peixes expostos.

“Viste aquele que tinha uma boca muito grande? É este”, explica o também investigador do laboratório MareFoz dirigindo-se a um miúdo e aludindo ao cantarilho, um peixe avermelhado que habita no nordeste do oceano Atlântico e nos arquipélagos da Madeira e Açores, a profundidades de entre os 200 e os 1.000 metros e associado, muitas vezes, a destroços submarinos.

As perguntas das crianças vão-se sucedendo, depois de verem um congro na banca, um peixe que “parece uma cobra e esconde-se nas rochas” ou confundirem o espadarte com um peixe-espada.

“Os miúdos perguntam tudo. Gostam de ir ao livro – ver os peixes ali listados, uma informação também disponível na página da Internet da Ciência Viva – e depois ver ao vivo”, disse à agência Lusa Tiago Verdelhos.

Assume, no entanto, que lidar com as crianças “não é fácil” para os académicos e investigadores: “Às vezes, é completamente caótico. Qualquer plano que possa ter traçado, desaparece e temos de ser criativos”, brincou.

Doutorado em Biologia, assume, por outro lado, que muitas das pessoas que afluem ao mercado da Figueira da Foz “conhecem mais, assim à vista”, as espécies de peixes do que os investigadores, argumentando que a sua função é complementar o conhecimento empírico “com as características do peixe e outros dados científicos desconhecidos da maioria das pessoas”.

Numa banca ao lado, Tânia Varela segura um exemplar com cerca de cinco quilos nas mãos e pergunta ao presidente da Câmara da Figueira da Foz, João Ataíde, e ao ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor – presentes na iniciativa de hoje – de que peixe se trata.

“Qual é este peixinho, não me diga que não sabe?”, brinca a peixeira: João Ataíde atira que se trata de um mero, uma espécie que com o cherne e a garoupa está entre os maiores peixes marinhos. A peixeira responde que o autarca “sabe mais ou menos de peixes”.

Sem, no entanto, dar logo a resposta, Tânia Varela repete a pergunta, desta vez a Manuel Heitor, que remete a resposta para o investigador da Universidade de Coimbra: “É uma garota, senhor ministro”, ri-se a peixeira, aludindo à garoupa que segurava à vista da comitiva.

“Também vim cá aprender”, disse o ministro da Ciência, Manuel Heitor, aos jornalistas, confrontado com a ‘escorregadela’ na pergunta da peixeira sobre a garoupa.

“O senhor presidente da Câmara também me deu várias ideias para eu aprender e o envolvimento da autarquia com o Ciência Viva é claramente um sinal de que é um esforço coletivo”, frisou o governante, sustentando que no mercado municipal “também se pode aprender a fazer ciência”, envolvendo os investigadores, atores locais, as famílias e os cidadãos em geral.

Já o presidente da autarquia, João Ataíde, não vacilou noutra pergunta, esta sobre a marmota, uma pescada, mas mais pequena, e acabou por revelar o segredo do conhecimento que demonstrou sobre os peixes: “Quando era miúdo, ia com o meu pai e a minha mãe ao mercado, em Aveiro, onde morava, e ensinavam-me os peixes todos. Eram outros tempos, mas era verdadeira ciência ao vivo”, disse o autarca à agência Lusa.

O projeto Ciência Viva no Verão está a comemorar 20 anos e, este ano, conta com já com cerca de 11.200 inscrições para as 1.100 ações e passeios científicos que vão decorrer em todo o país, em parceria com 150 entidades.